Durante as minhas leituras diárias (Brainstorm #9, Blog do Yogodoshi, etc) reparei na grande agitação da blogosfera Brasileira gerada por um alegado ataque do Estadão de São Paulo aos media não profissionais - entenda-se autor sem carteira profissional de jornalista - e muito em particular aos blogues de qualidade duvidosa que poderão, segundo a campanha, serem fontes de desinformação e não de (in)formação.
A campanha até pode ser vista como interessante e carregada de humor - ou ataque disfarçado de humor - mas não deixa de ser um grande tiro no pé. Resta agora saber em que pé. No pé do Estadão ou no pé da Talent, a empresa responsável pela campanha?
Certo ou não que existam muitos blogues que não são a melhor fonte de informação para determinados assuntos, o Estadão parece ter entrado por um caminho demasiado perigoso. As diminuições nas receitas publicitárias, a diminuição generalizada do interesse do público pelos media tradicionais e o aumento da capacidade de formação de opinião por parte de alguns blogues, parece estar de facto a toldar a capacidade de raciocínio de alguns meios de comunicação, mas esse, será um problema com que eles próprios terão que lidar.
As técnicas de “guerrilha”, em que um concorrente valoriza o seu produto através da inflação das características menos valiosas do outro, são “engraçadas” quando falamos de empresas. Funcionam e podem ser verdadeiramente interessantes (Mac vs PC) mas quando passam para este nível são demasiado perigosas para quem atirar a primeira pedra. O Estadão não poderá de forma alguma “controlar” a reacção do alvo do seu ataque quer gaste muito ou pouco em campanhas de resposta.
O jornalismo, regra geral, passa por uma fase de reestruturação e adaptação à realidade. As fontes noticiosas - boas ou más - multiplicam-se a cada hora que passa e o processo de selecção do que é de interesse público, bom ou mau, interessante ou “de encher-chouriços”, passará única e exclusivamente pelo público, por muito que isso seja do desagrado de tantas empresas espalhadas por esse mundo fora. O editor-chefe, o filtro de qualidade e o medidor de sucesso abandonou definitivamente as entranhas da produção e passou a estar do lado de fora das fábricas de notícias e opiniões. O valor da tiragem está claramente a ser suplantado pelo valor das visitas e comentários!
Os media tradicionais devem então perceber que o que está a fazer crescer a capacidade de acção dos blogues é algo tão simples como o facto de estes serem, parte das vezes, desenvolvidos por especialistas e profissionais integrados nas áreas relativas ao assuntos que abordam e não apenas, profissionais da escrita jornalística. Os meios de comunicação fazem uso desses mesmos profissionais para a recolha de opinião e material que serve a realização dos textos ou peças exibidos. Não podem, nem devem, denegrir esses mesmos profissionais simplesmente porque não são pagos pelo mesmo patrão.
Quanto à real importância de alguns blogues, podemos pegar em casos particulares como o de Michael Arrington e afirmar de forma segura que é um formador de opinião bem mais forte do que a grande maioria dos jornais “profissionalizados” anível mundial. Durante o dia de ontem, por exemplo, o Techcrunch deu uma real tareia na Business 2.0 pelo simples facto de que profissionais, que a maioria das vezes são competentes, se terem “esquecido” de proceder a uma pesquisa mais cuidada dos assuntos tratados neste post aqui.
Não existe nenhum Techcrunch no Brasil mas existem sem dúvida blogues tão ou mais importantes para a opinião pública Brasileira como o caso anteriormente referido. O Estadão, acima de tudo, mostra uma grande falta de informação relativamente ao poder dos blogues que preenchem a blogosfera Brasileira e demonstra muita, mas mesmo muita, insegurança relativamente ao futuro. A Talent, pode gabar-se de ter uma das campanhas mais faladas dos últimos tempos mas no futuro, tenho a impressão, que de pouco mais irá falar.
Para visualizar as imagens e vídeo da tal campanha visite o Brainstorm #9
Boas reacções!